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sábado, 23 de maio de 2009

Meu não amor


É estranho como sentia saudades quando você ia buscar água. Aqueles segundos que separavam o resto das suas canelas se perdendo no corredor com o momento em que você deitava na cama.

Aí você voltava cheio de pressa em se livrar de mim e eu pensava que tudo bem. Você tem pressa até de se livrar de você mesmo. O problema não deve ser eu. E eu nem te amo mesmo. Só fui te visitar porque tenho preguiça de transar com qualquer um e se fico mais de três semanas sem sexo começo a pirar.

Sua voz era chata e seu papo então, insuportável. Respirava aliviada e sugava o máximo de você, pra ter a certeza absoluta de que não era você. Não sonhei com você. Não quero passar minha vida ao lado da pessoa mais estranha do mundo. Imagina só ficar grávida de um homem que tem pavor de mulher enjoada? Imagina só ficar velha ao lado de um homem que tem pavor da vida óbvia, cotidiana e imperfeita? Eu viveria infeliz.

Não é você. E lá vinha você me falar pela trigésima vez que você vai acabar sozinho e não deve nada a ninguém. E lá vinha você me olhar apaixonado e, no segundo seguinte, frio. E me falava para eu não sofrer e para eu ir embora e para eu não esperar nada e para eu não desistir de você. E eu me digo que não é você. Porque, se fosse, meu sono seria paz e não vontade de morrer.

Despedia-me, já sem aquela dor aterrorizante, das partes de você que mais amo. Ainda que eu nem te amasse mesmo. E me despedia das partes da sua casa que eu mais amo. Ainda que nada disso fosse amor.

E vou embora já sem chorar. Os últimos três meses chorando por você serviram ao menos para me secar por dentro.

Preciso me aliviar. Mas dou até risada porque acabaram os caminhos. O mundo não suporta mais esse meu não amor por você. Meus amigos espalmam a mão na minha cara e já vão logo adiantando que se eu pronunciar seu nome, eles vão embora sem nem olhar para trás. Remédios só me deixam com um bocejo químico e a boca do estômago triste, mas não tiram você do meu coração. E escrever, que sempre foi a única coisa que adiantava para os dias passarem menos absurdos, já se tornou algo ridículo. Escrever sobre você de novo? De novo? Tenho até vergonha.

Nem eu suporto mais gostar de você. E olha que nem gosto.

É como se o mundo inteiro, os ventos, as ondas do mar, os terremotos, as criancinhas peladinhas brincando de construir castelinhos na areia, os carros correndo nas estradas, os cachorrinhos meditando nas gramas de todos os parques do mundo, a chuva, os cartazes de filmes, o passarinho que canta todo dia de manhã na minha janela, a torta de limão na geladeira, a minha vizinha louca que briga com o gato na falta de um marido, um cara qualquer com quem eu dormi (e ele parece qualquer quando não é você).

É como se o mundo inteiro me dissesse: “hei Mari, ninguém agüenta mais esse assunto! Chega!”

E no meio da noite, quando eu decido que estou ótima afinal de contas tenho uma vida incrível e nem amava mesmo você, eu me lembro de umas coisas de mil anos e começo a amar você de um jeito que, infelizmente, não se parece em nada com pouco amor e não se parece em nada com algo prestes a acabar.

Lembro de você se recusando a me servir um copo d’água na primeira vez que fui a sua casa, de você deixando o chá secar no fogo simplesmente por perdermos a noção do tempo ao estarmos juntos. Lembro de você indo me ver todos os dias, nem que fosse só pra dar um ‘oi’, pra dar um beijo.

Lembro das horas que passávamos no MSN só conversando besteiras, do seu cheiro toda vez que eu te abraçava, da sua animação pra contar uma novidade, parecendo um menino que acabou de ganhar um brinquedo novo. Lembro do abraço que servia pra matar as saudades quando paramos de nos ver diariamente, e das vezes que você me esquecia te esperando por encontrar um amigo no meio do caminho, e de como toda a raiva que eu sentia por ficar te esperando sumia completamente assim que você aparecia com aquela cara de quem não fez nada.

E me lembro da primeira vez que eu te vi e me encantei de uma forma que nunca havia acontecido. Lembro do quanto eu achava bonitinhas as suas inseguranças e inexperiências, e o quanto essas inexperiências tornavam as coisas mais divertidas, seja nos pequenos incidentes ou quando nós quase destruíamos as coisas. Lembro das nossas conversas, apesar de eu nunca falar muito, nas quais eu me sentia tão sincera e tão livre, pelo fato de você dividir suas coisas comigo.

E então, no meio da noite, enquanto eu penso tudo isso, eu pergunto ao mundo todo que não agüenta mais esse assunto. Ao mar, às criancinhas peladas, aos cartazes de filmes, ao passarinho, à vizinha, aos cachorrinhos em meditação, à torta, aos carros, à qualquer um... eu pergunto: por que é que vocês todos estão tão cinza? Por que é que vocês não me ajudam? Por que é que todos vocês também ficam tão tristes quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também morrem quando ele vai embora? Por que é que todos vocês também amam ele?


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Eu dei uma adaptada no texto, pra ele melhor se encaixar nas coisas. Mas esse com certeza é um dos meus favoritos.
Quem disse que o tempo apaga as coisas? Quatro meses não ajudaram em nada...
Juuuro que eu não queria deixar o post melancólico, mas eu não consigo ler isso tudo, lembrar desses momentos e não me sentir assim.

9 marquinhas:

Carolissima disse...

Ai... achei tão lindo!!!!
Perfeito!!!! :D
Beijinhos

Aline disse...

A dor é sempre melancólica, mas o pior é ficar remoendo. Simplesmente não pense mais, se policie para desviar os pensamentos que aí sim o tempo ajuda. Tenha paciência. ;)

May disse...

Que lindo :x é incrível como, no fim, não mandamos em nosso coração e seque conseguimos mentir sobre certos sentimentos.

Fabiano Che disse...

"A dor é facilmente superada por todos, exceto pra quem a sente."

Essa é uma frase de Sheakspeare que se encaixa perfeitamente em seu texto.
Abraços!

Giuliano Marley disse...

Tudo é dor. E toda dor vem do desejo de não sentirmos dor.

Bianca disse...

Menina, a emoção tomou conta de você, mas eu achei o seu texto maravilhoso. Acho que o amor foi feito pra gente não entender mesmo, e continuarmos escrevendo, escrevendo, e no fim não chegarmos a conclusão nenhuma. Apenas sinta, e esqueça porque sente. Apenas ame, e esqueça PORQUE ama.

Beijos

Paula Tonkio disse...

Eu estou em uma situação difícil também, não sei se vou fazer a coisa certa, mais vou enfrentar as consequências de tudo, eu sei que no final ou eu vivo feliz, ou pelo menos aprendo uma grande lição.

Com o tempo você se recupera e tudo vai ficar bem.
Adorei o texto e quase chorei aqui.

Beijos

Nanda disse...

Adoro textos romanticos,embora eu não consiga falar muito sobre esse tipo de amor... rsrs!

beijo... adorei!

Anaa Bia ;) disse...

Como você conseguiu escrever o que eu tenho tentado escrever e não consigo ? Eu pensei que você estivesse falando de mim :/

Poxa, muito lindo, muito lindo mesmo *-*

Beeijo ;*